Enquanto a Prefeitura de Cubatão realizou uma programação festiva com shows para celebrar os 77 anos do município, moradores de bairros como Vila Nova e Vila Natal afirmam que a realidade enfrentada no dia a dia esteve longe do clima de comemoração.
A agenda oficial de aniversário contou com apresentações de artistas de renome nacional, com destaque para o show da cantora Simone Mendes, realizado no dia 9 de abril, além de outros eventos culturais e religiosos ao longo do mês. No entanto, para quem vive nas regiões mais periféricas, a prioridade da gestão municipal deveria ser outra.
Morador da Vila Nova há mais de cinco décadas, o aposentado Benedito Gomes afirmou que nunca havia visto uma situação tão crítica. Segundo ele, a falta de zeladoria é evidente em vias importantes da comunidade: “Bairro Vila Nova está jogado. Eu queria mais zelo, mais zeladoria. Esse monte de mato aí… não queria isso aqui, não”, disse. Ele também fez uma avaliação dura da administração: “De um a dez, dois”, resumiu.
A aposentada Rosa Maria dos Santos, que nasceu e sempre viveu em Cubatão, reconhece que há ações positivas, mas critica o que considera uma inversão de prioridades.
“Faz muita coisa boa, mas deixa a prioridade. A saúde, a zeladoria…”, afirmou. Ao comparar investimentos em shows com a situação das ruas, ela foi direta: “A manutenção é prioridade, com certeza. Elementar.”
A mesma percepção é compartilhada pela técnica de enfermagem Samira Gomes de Santana Oliveira Leite, que relatou problemas estruturais próximos de sua casa.

“Deveria cuidar mais da cidade, em vez de fazer esses shows que são caríssimos. Tem muito lixo, buraco… vem rato, barata”, disse. Ela também criticou a ausência do poder público nos bairros: “Só na época de eleição mesmo. Depois disso, eu não vejo ninguém.”
A gestão do prefeito César Nascimento (PSD) sustentou que a programação de aniversário teve como objetivo promover cultura, lazer e movimentar a economia local. Para os moradores ouvidos pela reportagem, no entanto, a festa não refletiu a realidade enfrentada diariamente, marcada por problemas básicos que, segundo eles, seguem sem solução.
Ex-vereador aciona MP e aponta ‘política de pão e circo’ na cidade
A programação festiva promovida pela Prefeitura de Cubatão também foi alvo de questionamento formal no Ministério Público do Estado de São Paulo. O ex-vereador Rodrigo Ramos Soares (PSB), o Rodrigo Alemão, protocolou uma representação pedindo a apuração dos gastos públicos com shows e eventos realizados pelo município.
No documento, ele afirma que a administração municipal tem adotado uma política recorrente de contratação de artistas de renome nacional com valores elevados, o que, segundo ele, pode configurar uma inversão de prioridades administrativas.
Em declaração encaminhada à reportagem, Rodrigo Alemão endureceu o tom e classificou a estratégia como uma forma de desviar a atenção da população:

“Instituíram uma verdadeira política do pão e circo na cidade de Cubatão, porque querem entreter o povo para esquecer da realidade em que a população vive”, afirmou.
Ele apontou que, enquanto milhões foram destinados a eventos pontuais, a cidade enfrenta problemas estruturais em áreas básicas:
“Falta o básico e gastam milhões naquilo que, para o momento da cidade, não é prioridade”, disse.
A representação cita que apenas os cachês dos shows do aniversário de 2025 somaram cerca de R$ 2,09 milhões, sem considerar custos adicionais com estrutura e logística. Para 2026, o documento menciona a contratação da cantora Simone Mendes por R$ 900 mil.
Rodrigo Alemão afirmou que não é contrário à cultura, mas defende outro modelo de investimento: “Eu sempre fui defensor da cultura de base, da formação, valorizando artistas locais e projetos permanentes, e não eventos de poucas horas com custo elevado”, argumentou.
Ele também rebateu a justificativa de que recursos da cultura não poderiam ser realocados: “Se houver vontade política, é possível redirecionar investimentos para áreas como saúde e educação”, afirmou.
Na representação, o ex-vereador pede a abertura de inquérito civil para analisar a legalidade, razoabilidade e proporcionalidade dos gastos, incluindo contratos, processos administrativos e eventuais inexigibilidades de licitação. O documento também solicita a verificação da compatibilidade dos valores pagos com os preços de mercado e a adoção de medidas judiciais, caso sejam identificadas irregularidades.




