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Shows contrastam com queixas de abandono em bairros de Cubatão

Relatos apontam problemas de zeladoria e manutenção urbana em regiões periféricas
Lailson Nascimento
6 Min. de Leitura

Enquanto a Prefeitura de Cubatão realizou uma programação festiva com shows para celebrar os 77 anos do município, moradores de bairros como Vila Nova e Vila Natal afirmam que a realidade enfrentada no dia a dia esteve longe do clima de comemoração.

A agenda oficial de aniversário contou com apresentações de artistas de renome nacional, com destaque para o show da cantora Simone Mendes, realizado no dia 9 de abril, além de outros eventos culturais e religiosos ao longo do mês. No entanto, para quem vive nas regiões mais periféricas, a prioridade da gestão municipal deveria ser outra.

Morador da Vila Nova há mais de cinco décadas, o aposentado Benedito Gomes afirmou que nunca havia visto uma situação tão crítica. Segundo ele, a falta de zeladoria é evidente em vias importantes da comunidade: “Bairro Vila Nova está jogado. Eu queria mais zelo, mais zeladoria. Esse monte de mato aí… não queria isso aqui, não”, disse. Ele também fez uma avaliação dura da administração: “De um a dez, dois”, resumiu.

A aposentada Rosa Maria dos Santos, que nasceu e sempre viveu em Cubatão, reconhece que há ações positivas, mas critica o que considera uma inversão de prioridades.

“Faz muita coisa boa, mas deixa a prioridade. A saúde, a zeladoria…”, afirmou. Ao comparar investimentos em shows com a situação das ruas, ela foi direta: “A manutenção é prioridade, com certeza. Elementar.”

A mesma percepção é compartilhada pela técnica de enfermagem Samira Gomes de Santana Oliveira Leite, que relatou problemas estruturais próximos de sua casa.

A moradora Samira Gomes de Santana Oliveira Leite | Foto: Cecília Siqueira

“Deveria cuidar mais da cidade, em vez de fazer esses shows que são caríssimos. Tem muito lixo, buraco… vem rato, barata”, disse. Ela também criticou a ausência do poder público nos bairros: “Só na época de eleição mesmo. Depois disso, eu não vejo ninguém.”

A gestão do prefeito César Nascimento (PSD) sustentou que a programação de aniversário teve como objetivo promover cultura, lazer e movimentar a economia local. Para os moradores ouvidos pela reportagem, no entanto, a festa não refletiu a realidade enfrentada diariamente, marcada por problemas básicos que, segundo eles, seguem sem solução.

Ex-vereador aciona MP e aponta ‘política de pão e circo’ na cidade

A programação festiva promovida pela Prefeitura de Cubatão também foi alvo de questionamento formal no Ministério Público do Estado de São Paulo. O ex-vereador Rodrigo Ramos Soares (PSB), o Rodrigo Alemão, protocolou uma representação pedindo a apuração dos gastos públicos com shows e eventos realizados pelo município.

No documento, ele afirma que a administração municipal tem adotado uma política recorrente de contratação de artistas de renome nacional com valores elevados, o que, segundo ele, pode configurar uma inversão de prioridades administrativas.

Em declaração encaminhada à reportagem, Rodrigo Alemão endureceu o tom e classificou a estratégia como uma forma de desviar a atenção da população:

O ex-vereador Rodrigo Alemão | Foto: Bruno Arib (Arquvio LEIA)

“Instituíram uma verdadeira política do pão e circo na cidade de Cubatão, porque querem entreter o povo para esquecer da realidade em que a população vive”, afirmou.

Ele apontou que, enquanto milhões foram destinados a eventos pontuais, a cidade enfrenta problemas estruturais em áreas básicas:

“Falta o básico e gastam milhões naquilo que, para o momento da cidade, não é prioridade”, disse.

A representação cita que apenas os cachês dos shows do aniversário de 2025 somaram cerca de R$ 2,09 milhões, sem considerar custos adicionais com estrutura e logística. Para 2026, o documento menciona a contratação da cantora Simone Mendes por R$ 900 mil.

Rodrigo Alemão afirmou que não é contrário à cultura, mas defende outro modelo de investimento: “Eu sempre fui defensor da cultura de base, da formação, valorizando artistas locais e projetos permanentes, e não eventos de poucas horas com custo elevado”, argumentou.

Ele também rebateu a justificativa de que recursos da cultura não poderiam ser realocados: “Se houver vontade política, é possível redirecionar investimentos para áreas como saúde e educação”, afirmou.

Na representação, o ex-vereador pede a abertura de inquérito civil para analisar a legalidade, razoabilidade e proporcionalidade dos gastos, incluindo contratos, processos administrativos e eventuais inexigibilidades de licitação. O documento também solicita a verificação da compatibilidade dos valores pagos com os preços de mercado e a adoção de medidas judiciais, caso sejam identificadas irregularidades.

 

 

 

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