Sócrates, o doutor da bola: dez anos da morte de quem era brasileiro até no nome

Mais que um jogador, ele foi um ícone da luta pelo fim do regime militar no país, na década de 1980

Por Will Siqueira / Foto: Divulgação/Corinthians

Doutor, “Rei do calcanhar”, Magrão (para os mais íntimos) eram os apelidos de um dos maiores cidadãos e jogadores de futebol que o Brasil já teve: há exatos dez anos – completados no último dia 4 –, morria Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o craque mais politizado da história da Seleção Brasileira.

Essa é uma pequena homenagem do LEIA àquele que deixou um legado de conscientização política, social e cultural ao país. Sócrates foi muito mais que um jogador de futebol. E não pelo fato de ter sido médico, mas por ter a consciência da real situação que os brasileiros viviam na época em que ele foi jogador (Ditadura Militar), externando seus pensamentos e executando atos de cidadania e compaixão para com o país e o povo mais sofrido. Postura que ele manteve até o fim de sua vida, propondo ideias e debatendo diariamente sobre todas as mazelas que, infelizmente, ainda afetam milhões de brasileiros.

Sócrates sempre desejou viver em um Brasil menos desigual e mais democrático – tanto que organizou ao lado de seus amigos e companheiros de Corinthians e Seleção Walter Casagrande Júnior, Wladimir Rodrigues dos Santos e Zenon de Souza Farias a tão conhecida e aclamada “Democracia Corintiana”, a qual tinha como objetivo fazer com que todos os jogadores do clube participassem de todas as decisões referentes ao futebol; assim como Sócrates queria que o povo brasileiro agisse em relação ao governo.

Foi com base na “Democracia Corintiana” que surgiu uma ação na cidade de São Paulo, que depois se espalhou pelo Brasil afora, denominada Movimento das Diretas Já, a qual culminou com o processo de redemocratização do país, isto é, os brasileiros foram às ruas para acabar com o regime ditatorial que comandava, e dominava sob torturas e mortes, suas vidas havia 21 anos. Portanto, Doutor Sócrates foi fundamental para a história do Brasil não só nos gramados, mas também fora deles.

Nos campos da vida, ele foi craque. Craque nas palavras, craque nos gestos, craque que sempre pensou no bem-estar coletivo. Vestiu as camisas do Botafogo, de Ribeirão Preto; do Corinthians; da Fiorentina, da Itália; do Flamengo; do Santos e da Seleção Brasileira.

Como qualquer ser humano, o Magrão não era perfeito. Por conta do excesso de bebida alcoólica, faleceu aos 57 anos, vítima de cirrose.

“Eu quero morrer num domingo, num dia em que o Corinthians ganhe um título”, disse o ídolo corintiano certa vez. E assim foi: com um empate em 0 a 0 diante do Palmeiras, seu maior rival, em uma tarde de domingo, o Doutor se despediu dessa vida, em paz e com sua missão cumprida. Até na hora de sua morte, ele foi iluminado.

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